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March 13, 2017

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Doença Mental, Paixão e Filosofia

         Alunos, residentes, familiares e pacientes têm me perguntado sobre o caso de Bruno, desaparecido no Acre. Ele tem alguma doença mental? 
Verdade que poderíamos sim tentar encaixá-lo em um ou outro transtorno, mas confesso que isto muito me incomoda. Se passa que quando temos um martelo na mão tudo o que enxergamos é prego. 
         Doença Mental, independente dos critérios diagnósticos, formalmente catalogados, significa perda de liberdade existencial. É a diferença entre beber álcool e ter uma dependência, de fazer regime e ter anorexia, de estar triste e ter depressão. Enquanto um é uma possibilidade da existência o outro está normatizado, cerceia a liberdade, não se pode mais escolher algo diferente. Se está condicionado. Preso nesta condição. Impedido de fazer,sentir,perceber algo diferente. 
         Assim que podemos perguntar: estaria o Bruno ao fazer tudo o que fez em seu quarto num estado sem liberdade? Estaria ele condicionado a acreditar numa falsa idéia delirante que o impede de viver plenamente sua realidade?  
        A verdade é que eu não sei. Não conheço o Bruno. Não conversei com ele. Tampouco sei o que ele tem como escolhas. Nem mesmo sei o que escreveu e qual foram suas intenções. Pode ser que esteja doente, mas pode ser também que seja só alguém querendo ser ouvido nas reflexões e caminhos encontrados. Ele está escravizado por uma idéia ou apenas está a expressando? 
       O que percebo desta história é o quanto temos medo de um comportamento apaixonado. O quanto precisamos tão logo achar justificativas que nos acalme da possibilidade de alguma reflexão diferente. E se o que temos com o Bruno for uma manifestação artística? E se for uma reflexão filosófica? 
         Não deve ser a toa que a palavra patologia, tão usada hoje em dia como sinônimo de doença, derive do grego "páthos" que entre outros significa paixão.  Mais fácil acreditarmos que ele não está são do que acreditarmos que alguém pode ser tão mobilizado por algum ideal. Somos passivos, inerciais, nossa energia de produção precisa estar voltada ao trabalho e ao conhecimento científico para ter sentido. Se alguém sai desta lógica da atualidade é porque deve estar doente. No nosso tempo a paixão não faz sentido. Eu não sei se o Bruno fez o que fez porque está com um transtorno mental ou não, mas independente disto, fato é que vivemos tempos malucos.

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