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March 13, 2017

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Sobre a Cracolândia

Foto: O Globo
  

 

O que penso sobre o que estão fazendo me faz ter que contar três histórias: 

 

1. Leticia* tinha 8 anos, dependente de crack, sempre viveu na cracolândia, já tinha sido obrigada a se prostituir, já tinha sido aviãozinho do tráfico, estava internada numa enfermaria de crianças e adolescentes dependentes químicos. Havíamos tido um dia muito agradável: jogamos futebol, tivemos cinema com pipoca, grupo de conversas. Como estava dando bastante plantões, conhecia bem os internados, tendo uma boa relação com eles. De repente, sou chamada, pois Leticia entrou em um quadro de intensa agitação e agressividade. Ela quebrou objetos, bateu em outras meninas. Fui o caminho todo até o quarto onde ela ainda gritava pensando : "nossa, ela destruiu tudo aqui. Olha isto! Tanta dificuldades para conseguirmos as coisas! Olha o que ela fez! Até os computadores ela destruiu! Só pode ser fissura do crack. O que vou fazer? Vou mandar contê-la no leito e medicar? Poxa, porque ela fez isto? Olha, bateu na Fernanda!  Tivemos um dia tão bom! Como ela pode ser tão mal agradecida?" 
Confesso que tive estes pensamentos. Acho que estava com raiva dela também. Quando cheguei no quarto, ela era segurada no braço por dois auxiliares de enfermagem e, ainda que estivesse algo agitada, parecia um pouco mais contida. Lembrei aquilo que sempre ensino para meus alunos e residentes e que, por pouco, deixei de fazer naquele dia: chama-se capacidade negativa. É um princípio que basicamente diz: toda vez que você for atender alguém, deixe para fora as emoções, dogmas, preconceitos, pre-julgamentos que vieram antes daquele novo encontro.  Ou seja, se chegasse e já tivesse concluído que era fissura, se não tivesse atenta ao fato de ter ficado com raiva, se tomasse as decisões baseadas no que conclui antes de ter me encontrado com ela, não teria tido capacidade negativa.

 Sentei na cama em frente a ela, olhei nos seus olhos e perguntei: 
- O que está acontecendo contigo, Leticia?
    Ela começou a chorar copiosamente, respondendo:
- Eu só queria uma família...


Neste dia me dei conta do quão errado estava meu pensamento e isto mudou a minha forma de pensar a dependência química e especialmente a psiquiatria. Ter vivido um dia bom, um dia com acolhimento e aceitação, fez ela se dar conta da verdadeira falta. Da falta estrutural que ela carregava.

 

2. A outra história é a de Mateus*. 
Ele era usuário de maconha e Cocaína, além de ter uma doença psiquiátrica grave, e já estava há mais de um ano abstinente. Tinha 22 anos.  Estava em tratamento e retomando aos poucos sua vida. Durante uma conversa, me falou:
 "sabe, Carol, o que sinto mais falta não é da droga. Minha maior abstinência é do crime."  
Por alguns segundos, na minha ignorância, isto me horrorizou. Como assim???  
" Quando estava lá, tinha fama, sucesso, respeito. Conseguia tudo o que queria. Agora trabalho (em um fast-food) feito um condenado, mais de 10 horas por dia, quando não faço hora extra. Ganho um salário mínimo, e o pior, as pessoas nem olham para minha cara." 

 

3. Meu mestrado foi com mulheres usuárias de crack do sistema penitenciário. Em sua maioria mulheres jovens, negras, mães, privadas de relações sociais e afetivas, com pouca escolaridade. Quando se olha para a biografia, para a história de vida delas, o crack surge depois de um conjunto de eventos estruturais. Depois do crack, vem o crime. Normalmente, trafico. Muitas foram abusadas sexualmente na infância, a maioria foi vítima de violências físicas, muitas presenciaram os mais diversos tipos de agressão, preconceito, racismo, machismo. E vejam: isto na infância, adolescência. Quase que a totalidade muito antes do primeiro uso do crack.  É uma rede de vulnerabilidade social que vai sendo reforçada e não desfeita. 
 

 

Sobre o que fizeram na Cracolândia? 
É acreditar que o que falta à Leticia é o crack. 
É acreditar que o tráfico é o problema do Mateus.

É acreditar que é uma questão de caráter.
Por fim, é achar que lugar de "gente assim" é na cadeia.

E que o problema é deles, não de todos nós.

 
*mudei o nome dos envolvidos para preservar suas identidades

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